"Sexo verbal não faz meu estilo, palavras são erros e os erros são seus... Não quero lembrar que eu erro também."
Renato Russo
"As palavras surgiram num sonho e eu as escrevi quando acordei, sem saber ao certo o que significavam ou a quem se aplicavam"
Neil Gaiman

sábado, 18 de agosto de 2012

De repente você esqueceu a janela do seu quarto aberta,
Ninguém vai fechar.
O vento sacode as cortinas.
As folhas vão se acumulando no corredor.
Você continua sorrindo na foto no aparador.
Seus sites de relacionamentos estão todos ativos.
As páginas de promoção continuam lhe enviando e-mails.
Para quem não sabe, você está ali. Fazendo um misto quente ou dormindo no sofá.
Eles nem pensam se você esta realmente bem ali. Rindo de um programa de humor.
Seu violão está recostado na parede.
Sua casa não faz barulhos.
Suas plantas secaram.
Ainda ficaram algumas roupas sujas no cesto.
Outras no varal.
Mas, para alguns, você ainda está ali.
Você não manda mais mensagens.
Acabou a bateria do seu celular.
Ninguém vai religar.
Você deixou algumas louças para lavar.
E esqueceu o frasco do perfume aberto.
E a toalha molhada em cima da cama desarrumada.
Você não retornou a ligação do banco.
E não viu o final da temporada do seu seriado favorito.
Você não pagou o IPVA do seu carro, nem a conta de água.
Ficaram algumas sobras do almoço dentro da sua geladeira.
Mas a sua foto com a praia de fundo e uma flor no cabelo está ali.
Sorrindo.
Com seu rosto congelado para sempre no tempo.
E você...
Bom...
Você não esta mais ali...

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Percebi que eu nunca mereci essas declarações de amor que você costuma postar para suas namoradas. Nunca mereci uma insanidade sua, nem um gesto tresloucado. Você sempre me deu o silêncio. O Vazio. O desdém. O escondido. O segredo. Continuo nessa mania louca de tentar entender o porquê de você sempre me negar isso. Dia após dia, infernizo meu coração com suposições que justifiquem o seu desprezo. Nenhuma delas, afinal, é verídica. Nego constantemente assumir que eu jamais serei para você algo melhor do que o que você imagina que sou. Arde. É um inferno o que tenho feito comigo. Não importa quantas vezes eu, relutante, tente voltar meus passos e recomeçar onde paramos, ou o que nem ao menos conseguimos terminar. É inútil. Posso voltar 75 vezes para sua vida, que você vai continuar me amando do mesmo jeito que me amou da primeira vez: não amou. Nunca permitiu que seu coração feito de lâminas me amasse. Nunca deu a chance, em todos esses anos, por todas essas vezes, de sentir suavemente o que de melhor eu tinha para te oferecer. Você nunca se importou em ter o que eu sentia. Simplesmente não tem valor nenhum pra você, tudo o que eu te dei. Você não tem culpa por isso. A responsabilidade é minha por querer dar algo para alguém que não se interessava em receber. É muito estranho o que tenho sentido depois disso tudo. Enlouquecidamente estranho. Eu fiquei estranha. Eu não me reconheço mais. Onde foi, em que momento dessa história ridícula, eu me esqueci?

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Preciso parar com isso. Parar de espiar por debaixo das portas tentando descobrir um ruído por detrás do silêncio. Chega de procurar nas minhas gavetas aquelas histórias que li quando criança, a fim de acalentar as lembranças que eu mesma inventei. Existe uma hora na vida em que os pés precisam sentir o chão. A cabeça precisa parar de entender. O coração precisa realinhar o ritmo. Em certo momento, precisamos aceitar que não existe um segredo velado dentro de cofres lacrados. Percebi que tenho muito a fazer, muito a aprender e muito a desprezar. Aprendi que espiar por entre os dedos da minha mão é uma forma desleal de confundir o que eu posso ver, e saber. Minhas mãos servem para eu me cuidar, e não para eu me esconder e me enganar. Eu sei tudo o que há depois das paredes. Não preciso perder meu tempo tentando dissimular algo que eu nem preciso pra minha vida.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Trato



Combinamos que não íamos nos ver. Tornamos a apertar nossos botões de desliga amor. E ai você novamente se veste com suas roupas de indiferença e continua sua vida como se eu nunca tivesse existido.
Não existimos. De repente não existiu aquele dia em que andamos um ao lado do outro e nossas mãos se esbarraram, e nós fingimos que foi por acaso. Não existiu o dia em que você roubou minha presilha porque queria algo que te lembrasse o cheiro dos meus cabelos.
Nem quando você escondeu meu anel no seu bolso, afim de segurar algo que lembrasse meu toque, só pra saber se eu iria ficar mais um pouquinho do seu lado. Não existiu o dia em que, relutante, eu entrelacei meus dedos na sua mão, e você ficou rindo do meu receio de que um dia essas coisas não iriam existir mais.
Não.
Combinamos que nada disso existiu. Imagine! Foi só um caso, uma insanidade, um movimento impulsivo. Não houve retorno, nem procura. Foi uma historia como qualquer outra. Não sentimos saudades um do outro, só uma vontade passageira de lembrar como que era estarmos juntos.
Combinamos que você nunca me achou engraçada nem que eu morro de rir das suas manias. Nem que eu escrevi seu nome no Box embaçado dentro de um coração.
Estamos bem e felizes. Nós não andamos para trás, não vivemos passado, porque isso é atraso de vida. Sequer retardamos nossos passos porque isso nos faz cruzar de novo. E nós nem gostamos disso. Você jogou todos os meus presentes fora porque eu mandei, e você quis acreditar no que eu disse. É mais fácil ter um motivo para não existir.
Combinamos, no silêncio, que não existimos mais. Eu combinei que não ia me importar com sua inexistência. Você combinou que existem outras que me farão não existir para você.
Combinamos que vamos nos esbarrar pela rua como desconhecidos. Vamos continuar nos encostando pelo tempo, pelas memórias, sem um existir para o outro.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Silêncio de resignação

É... pouco a pouco as lembranças vão sendo destruídas, aniquiladas, sem prévio aviso. Aos poucos e de forma impetuosa, aquilo que nos era único, não é mais. Por algum motivo secreto e indecifrável eu precisava que tivéssemos algo só nosso, algo tão único que grudasse nossos corações para sempre, mesmo que longe. Mas o que era pra ser, não está sendo mais. Eu vejo tudo que sonhei um dia ser inumeras vezes pisoteado. Eu observo isso, inerte, porque eu não posso e nem devo fazer nada. Preciso deixar morrer. Preciso que a saudade, a fome, as lembranças vão embora. Preciso deixá-las ir. Mas é tão ruim. Ruim se desfazer daquilo que amamos, sem despedidas. Preciso resgatar aquilo que perdi porque dei. Preciso ir até o lixo e pegar de volta algo tão bom, tão limpo, tão simples, tão único e limpá-lo de novo. E guardar. Sinto uma dor calada neste momento. Sem lágrimas, sem queixas, uma dor acostumada. Uma dor acomodada. Uma dor que eu já previa que ia acontecer, mas mesmo assim ainda arde. Bem menos. Mas arde. Talvez não tão menos quanto deveria, ou quanto eu queria. Sinto uma saudade imensa, não de você, mas do que eu era antes disso tudo.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

“Sinta falta de quem sente falta de você”
Concordo plenamente com a frase acima.
Eu só não sei como aplicar.
Como aplicar?
Estou um tanto embriagada e, quando fico assim, me lembro de você com mais detalhes. E com mais afeição.
Consigo sentir sua falta de uma forma tão suave quanto o vinho tinto que tingiu levemente meus olhos.
É como se o torpor causado pelo álcool reavivasse os nossos momentos vívidos.
Você estava sentado no chão, de um  hotel qualquer, conversando coisas atoas e reprovando minhas falas esganiçadas em razão de umas doses a mais.
Mas eu gostava de rir disso.
Enquanto venho dirigindo, um tanto indiferente, penso em como não sentir sua falta. É errado sentir sua falta.
Você não pensa em mim.
Nunca pensou.
Meus olhos ainda conseguem sentir um ardor, que os tinge de vinho.
O mesmo que eu bebo. O mesmo que os reflete na taça ociosa.
Meus olhos se tingem de vinho, sim redundantemente, quando observo ao redor e sinto que você não está ao meu lado para reprovar minhas falas descompromissadas. Ou para rir das minhas tolices.
Sinto falta do nada que você é.
Dos defeitos que você é.
Do cara mais imbecil que você é.
É o vinho que entra pelas minhas artérias e faz meu coração bater metodicamente.
Rubro é o sangue que eu mato a sede e a sanidade.
“Sinta falta de quem sente falta de você”
Quem sente falta de você?
Uma taça de vinho francês pede sua presença.
Pra que ela se tinja de uma cor escarlate.
E que ao provar da minha boca. Você sinta o sabor amadeirado.
Inodoro.
Inócuo.
Fatídico.
Real.

sábado, 7 de abril de 2012

Queria que algo algo acontecesse, que me fizesse perder o rumo, a cabeça. Que me fizesse sentir aquele gosto de fome de desconhecido, sentir cheiro de loucura e de alegria imensurável. Porque essa monotonia, essa mesmice, esse acordar de manhã anestesiado e sem grandes palpitações e incertezas tem me deixado extremamente morta, com a impressão de que a vida acontece em outro lugar, bem fora de mim.